Dona Flor



     Deus deu-me um amor. Aproveitei-o. Senti-o como ele me pediu – o pedido silencioso do amor. Quando não estava com ele era quando me preparava para ele, os bobes coloridos no cabelo, a tinta nas unhas, o instantâneo de beleza nos defeitos do rosto, a brancura. E quando eu estava com ele, meu tu, meu amor era festa – tudo era grande: detalhes maiores que a regra, eis aí. Minha regra era bonita demais.
     Pois então foi a hora – vê que Deus (e é das primeiras que o digo em maiúscula) Deus deu-me outro amor. Um amor de mistério que não pedia nada; senti-o. Com suavidade, a princípio, toquei-lhe com meus dedos, cravando carinhosamente as minhas digitais na sua pele humana. E depois, mais forte, deixei-me consumir por ele, com a luz bem baixa e bem laranja, com melodia e com ritmo e com as minhas pernas femininas dançando, sendo elegantes, gentis, amantes. Senti o outro amor.


     E quando não estava com ele era quando eu estava com o primeiro. E quando eu estava com o segundo era quando o primeiro estava comigo. Estavam comigo, os dois, e eu não estava senão exausta – e não de amar, que amar faz bem. Mas de não me estar. É que, no fundo, estar-se é tudo.
     Pois larguei dos dois! E namorei-me. Eu. Namorei-me para amar melhor tantos amores quanto houvesse no mundo. Que egocêntrico o amor! Meu tu, meu tu, meu tu… vê que eu estou até em ti.
     Deus me deu dois – dois amores. Talvez daí essa subjetividade toda.


( Juliana Gama )

2 comentários:

  1. Ju, a poeta da prosa!
    Adorei, amiga. Você tem talento e um futuro brilhantes!

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  2. Descobriu a leveza da liberdade, Juh! Fascinante encontro com o espelho...um pouco radical, eu diria, mas não imutável.É o seu momento - seu verdadeiro nascimento. Flor que se abre encantada com as cores e luzes.
    Feliz de quem se basta.
    Feliz de quem não espera do outro...
    Escolha que liberta e não aceita limite.
    Assim ninguém te sufoca e invade.Ponto.
    Invejo você e Te admiro muito.

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