Harmonia

      Ela queria música.
      Tinha todos os papéis à volta, com todos os lápis, as sombras, as letras, mas não.
      Tinha a tinta e a pena e, por céus! Que tinha ela de palavras!
      Mas não.
      Rejeitava as sombras.
      Rejeitava as linhas.
      Queria música.
      A música que lhe revirava o estômago, que lhe apertava as artérias,
      que lhe comprimia o peito, batendo.
      A música.
      A que lhe tirava do mundo, que lhe tirava do tempo, que lhe tirava sorrisos.
     A música. A que ela ouvia nos acasos, nos gestos que ninguém jamais perceberia; a música que lhe ouvia e a ninguém mais, porque estava atenta a ela e era cega às vozes dos outros.
      A música.
      A nova e a velha.
      A música de curiosidade.
      De movimento.
      Música de interesse, interesse.
      Ela queria muito, a música.
      A que lhe tirava o fôlego.

( Juliana Gama )

3 comentários:

  1. Texto lindo,claro,desnudo para quem valoriza a essência das cores,das vias e dos sonhos de uma vida inteira,nessa busca eterna pelas notas perfeitas da sua intensa musicalidade. Papai Bolivar.

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  2. O que comentar além de "lindo, perfeito, adorei, Ju!"?

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