Perda

Um dia ela acordou e ele não estava lá. Ele, que não é gente, que não é bicho, que não é planta. Ela abriu os olhos, esfregou-os bem. Levandou-se. Esqueceu do sonho que tivera. A água limpa, fria, o rosto - e ele. Cadê?

Esqueceu de onde o metera - se é que o tinha metido em algum lugar. Os músculos do peito fecharam-se, o sangue engrossou nas veias, e ela imediatamente pôs-se a refazer os próprios passos desde que chegara em casa, no dia anterior - a fechadura prateada da porta, o largar da bolsa no sofá, a geladeira, água, o banheiro limpo, tudo. E nada - o estômago retorcia-se - dor, desconforto. O sangue esquentava mais. Onde foi? Onde está?

Segurou o rosto com as mãos - geladas, trêmulas. Levantou-se mais uma vez - onde foi que o perdera? Onde foi - as bochechas trepidavam, quentes, úmidas, o queixo encolhia-se. Branco - deu-se a uma busca mais detalhada - o suporte onde pusera a chave, a manta de crochet que cobria o sofá, a prateleira prateada de onde pegara a água, na geladeira, fogão, as toalhas bordadas do banheiro limpo; nada, nadinha. Olhou na bolsa, não estava. No travesseiro, não estava. Debaixo da cama; o estômago que se apertava mais. Não estava - não estava em lugar algum.

Derrotada, ela estendeu-se sobre a cama. O ventilador girava no teto, e sua mente acompanhava o movimento, rodando, rodando, rodando. Os pés formigavam, dedos moles - não podia tê-lo perdido, não podia! Sentia os joelhos estalarem - mas perdeu. Ele que não era gente. Não era bicho. O coração doía - o dela; que era ele? Não tinha mais. Quem? Já o tivera; perdera! O motivo. Sentido. Que era ele? Repete. Que era? Não se lembrava mais. Pois o perdera, ela. Perdera-o como quem, ao levandar da cama, se esquece completamente do sonho.

( Juliana Gama )

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