Se sonha

A luminária acendeu como um pequeno dia - diazinho de nada, na madrugada que se espalhava tão calma, tão sabida de si, sobre um mundo amplo, e sobre uma cama de casal. A soneca do sol; soneca da tarde.
Tão frouxa como acendera-se, fora apagada a luminária da mesinha. É que ela não queria acordá-lo, a moça. Para quê acordar alguém que sonha? Olhou bem para o corpo esticado na cama, a sobrancelha grossa, barba por fazer. Olhos fechados, expressão nenhuma. Se sonha? Sonha. Bem ao seu lado. Bem ali. E tão distante. Intocável. Certo que sonha - é madrugada! A soneca do Sol.

Levantou-se, suave, como se deslizasse pela cama - Quem? - A moça. E os cabelos? Os cabelos soltos. Amassados. De que cor que eles eram? Qualquer cor. Ela levantou-se, cabelos amassados, o blusão de homem que lhe servia de camisola. Foi até a geladeira e voltou. Voltou com os lábios úmidos, a sensação de gelado na garganta, que descia. Parou-se à janela do quarto, viu o céu sem estrelas. Macio, aveludado, e... vermelho. Por que é que o céu é tão avermelhado à noite? Poluição. E antes que um debate moral sobre o viver numa cidade como aquela, um que conteria elementos químicos, sociológicos e ambientais, antes que este debate se travasse dentro dela, a moça amassada fechou bem as cortinas e escorregou-se de volta à cama de casal.

Sentou-se num canto, o oposto ao que estaria o travesseiro do outro. Sentou-se, dobrou as pernas, recolheu-as, o braço apoiado num joelho, e pôs-se a observá-lo novamente. Esticado. Sobrancelhas. Barba por fazer. Será que sonha? Uma dúvida. É madrugada! Mas não pôde concluir o raciocínio. Até podia, mas não quis. É que a questão da poluição voltaria-lhe à mente.

O tempo do silêncio foi, então, o que se seguiu. Nem grande nem pequeno; o tempo razoável para um silêncio. Se sonhava, se não sonhava, o fato foi que uma vontade súbita de acordá-lo atingiu a moça. Assim, de repente, a vontade violenta, arrasadora, subir sobre ele, o corpo esticado, sacudi-lo, gritá-lo, arrancá-lo daquele silêncio; ou se aproximaria com destreza, a agilidade felina que umas moças às vezes têm. Aproximaria-se, o movimento destro, as unhas arranhando-o de leve, subindo-lhe o corpo, respiração depois de respiração, lábios maliciosos ao ouvido, os que estiveram úmidos, lábios que sussurram, o sussuro que é a voz da noite. O deslize que é o ritmo da noite. O movimento. Mas, se sonha? Hesitação. Se sonha? Vai que sim. E o silêncio foi retomando-se, um que já fora doce. Se agora é amargo? Não é que seja amargo. Mas as cores, as unhas, o movimento dos lençóis vão desfazendo-se, marcha ré, todo o filme arquitetado na mente desagarrando-se solenemente da realidade mansa do casal. E a calma, a amplitude, a madrugada já bem sabida de si, aveludada, macia, reergue-se nos arredores do mundo, e daquela cama dividida.

Um ou dois tempinhos podem ter seguido, uns silêncios sem muita importância, quem sabe eram de frustração, ou conformidade. A moça deitou-se ao lado do moço esticado,  acomodou-se. Olhou para ele uma última vez. Esticado, sobrancelhas, barba. Mas agora nem fez questão de se perguntar. Veludo. Maciez. Espremeu os olhos como quem fecha bem as cortinas. Seus pensamentos, uma névoa avermelhada. Ela virou de lado, puxou o lençol e dormiu.

( Juliana Gama )

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