Lá dentro

O quanto custou para que ela chegasse até ali não se pode saber, mas a completude daquele lugar compensaria qualquer sacrifício que a menina fizera. Era, sem dúvidas, um lugar maravilhoso. O céu brilhava branco como em dias de chuva, mas não chovia, e a pequena menininha contemplava a imensidão do mundo que se estendia em redor. Tinha um frescor radiante no rosto, e os olhos arregalados de quem há muito não vê.

Como se acordasse de um longo sono, assim ela se sentia. Seus braços pesavam, suas pernas pesavam, e a cabeça, deus, a cabeça pulsava de uma forma tão exata, tão clara, que não se podia sequer duvidar da veracidade da situação. Era real – o frescor, a pulsação era real, o sangue de fato corria, violento, dentro dela. E os olhos arregalados da menina não cansavam de contemplar aquela imensidão, aquela infinitude. Como se acordasse de um longo e pesado sono. Como se acordasse...

Até a luz branca do céu compactuava com as suas verdades; tudo estava claro agora. Seus modos, seus gostos, quereres, tudo existia, e tudo estava bem ali. E a menina, que chegara ao ponto de se esquecer destas coisas, arregalava os olhos e se fazia encantar com as novas descobertas daquele lugar sem fim.

Que incrível que sou! E o ar simplesmente fluía em seu corpo, toda a vida que ela teria brincando ali, bem diante dela, como vagalumes que voam ao vento. Que livre!

Livre.

Assim se sentia a menina, a pequena menina que se maravilhava com o brilho de seus vagalumes, com o imenso mundo à sua volta, sob o céu branco de um dia sem chuva. Tendo seu mundo inteiro para ser pensado, e tendo, sobretudo, a si, limpa, nítida, clara, pergunto-te: o que mais poderia uma menina querer? Maravilha. Sem dúvidas, maravilha. Ela vivia a mais absoluta das maravilhas que a solidão traz.


( Juliana Gama )

2 comentários:

  1. Sem palavras.
    Simplesmente adorei! (Vou cansar de repetir isso, vamos começar a postar textos ruins, ok?)

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  2. Anônimo4/3/11 01:54

    Simplesnente lindo ,claro, puro e maravilhoso texto. EU JÁ SABIA o quanto você é especial e extraordinária para mim, que sou seu pai, e para o mundo. Bolivar

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