Os mistérios do QUASE

Foi numa ou noutra esquina que dei por conta: A humanidade está toda impregnada de "ses". E é exatamente deste ponto que brotam muitas das nossas superstições do destino. Não sei o quê, mas que existe todo um mistério escondido por trás dos quase-acontecimentos (do que podia ter sido e, por alguma razão oculta, não foi), existe. 
E hoje, particularmente, estou aqui para dissecá-lo.
Conhecem uma dona que tem um marido beberrão. E ela que já fora formosa, a pele lisinha, lisinha, vem conquistando rugas até nos dentes por conta da preocupação. Mas quem é que ia saber que seria assim? Que o Seu Joaquim, que costumava ter tanto charme e uma bela carteira, logo o Seu Joaquim se tornaria um velho beberrão. E ainda por cima barrigudo! E ela era tão jovem, a pele tão, tão lisinha... Quem ia saber, quem!

Se bem que, uns dois dias antes da dona em questão se entregar ao seu atual destino, vê que houve um outro moço - um que não tinha lá tanto charme quanto Seu Joaquim tivera na mocidade, mas ele tinha um charme, ah, tinha. Também a carteira do segundo moço podia não ser, assim, tão cheia, mas sabe que vazia ela não estava. O segundo moço que apareceu dois dias antes, e, por um tantinho de acasos, fez com que a Dona da pele lisa olhasse para ele, e, por outro tanto, o perdesse de vista em nome do charme maior de Joaquim. Quem se vê... Quem vê que com este segundo moço, por uma olhadela, a dona hoje podia não ter tanta ruga... e vê que foi por um se, por um se que a dona não se livrou do barrigudo em potencial que até então Joaquim, ocultamente, era. Ora, só pode ser carma! E se ela tivesse olhado mais. E se o tivesse conhecido melhor. E se (Percebe que, além de misterioso, o destino é cheio de artimanhas). Só pode ser carma.

Só pode, que de trás de tanto charme haveria a possibilidade (agora, confirmada) de um beberrão careca (era careca ou era barrigudo?), um beberrão escondido careca e barrigudo que - quem ia saber! - desgastou a pele tão lisa da dona...

Pela dona, não sei mais, mas para todo o resto, é muito bom ficar de olho nos quase, que tudo, tudo podia ser diferente num só Se que ousasse acontecer.

Estamos por um fio.

( Juliana Gama )

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O que é importante não se vê

    E foi então que apareceu a raposa:


- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu educadamente o menino que, olhando em volta, nada viu.
- Eu estou aqui - disse a voz -, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa - não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Mas, após refletir, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui - disse a raposa - Que procuras?
- Eu procuro amigos - disse o príncipe - Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. - Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. A teus olhos, não passo de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível - disse a raposa - Vê-se tanta coisa no mundo.
E a raposa retomou seu raciocínio.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.

Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vê, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens os cabelos dourados. Então, será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! - disse ela.
- Eu até gostaria - disse o pequenino -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. - Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? - perguntou o pequeno príncipe.

- É preciso ser paciente - respondeu a raposa. - Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...

No dia seguinte, o príncipe voltou.

- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora - disse a raposa. - Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.

- Que é um ritual? - Perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também - disse a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adotam um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é, então, o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca, nunca teria férias!...

Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. 

Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis - disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! - disse ele.
- Vou - disse a raposa.
- Então, não terás ganho nada!
- Terei, sim - disse a raposa - por causa da cor do trigo.

E, depois, acrescentou:

- Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho, para não se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
Tu és responsável pela tua rosa...

Adeus.

( Adaptado de "Le Petit Prince", Saint-Exupéry, 1940 )

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