Mentirinha

O amor é besta, meu bem, besta como uma porta. E é por isso que gosto tanto de ti, porque tenho bestidão no peito. E não digas que não entendes, benzinho, rasgaria meu coração.

Acontece que tal sentimento tem o olho maior que os dentes (disto tu sabes muito bem), muito, muito maior, e sai por aí cantando de eterno, de puro, de belo (este último tenho que admitir que ele é), sai cantando e criando cada vez mais expectativa nas pessoas, como se fosse, melhor, como se só fosse por si, e se fosse ser sempre. Entendes? Sei que sim.

Na prática não é assim; mas se ele não percebe, quem é que vai ligar? No fundo quem atrai, quem encanta, são outros sentimentos, uns de barra muito mais pesada, que variam desde a curiosidade da paixonite até o mais secreto capricho que um homem pode ter. O amor é consequência, melhor, é invenção. Por pena ou por sei-lá-o-quê, ninguém tem coragem para chegar nele e desiludi-lo, tão confortável que é o amor! Então, meu bem, continua-se alimentando esta besteirinha meio cega que canta as proezas dos outros pensando que são proezas suas.

Mas quem liga? O pobre é tão, tão bonitinho, benzinho, que agora você que se chegue para cá que a besteirinha está com fome, e cara feia definitivamente não tem nada a ver com ela.

( Juliana Gama )

Nenhum comentário:

Postar um comentário