Destino

Olhar para trás - sim, peguei-me a olhar para trás. E a mesma nostalgia, a mesma risada guardada, tudo aquilo que acontece a quem se volta às lembranças me aconteceu. Aquela cabeleira amarela pipocando pela casa com o irmão. Bons tempos, pensei, e continuei a seguir-me escada acima.

Estaria num dia como tantos outros (até porque não me lembraria de um dia específico) e arrumava sobre o piso de madeira uma verdadeira cidade com os brinquedos. Orbanizava estrategicamente cada ponto da cidade, desde o hospital até o ferro-velho, para que a história pudesse acontecer ali. Em seguida, atribuía um papel a cada boneco e punha em prática um roteiro que eu inventava na hora.

O personagem principal era "interpretado" pelo irmão, mesmo a história sendo completamente inventada por mim. Eu gostava de mexer com os outros - com os figurantes, com os parceiros e, principalmente, com os vilões. Eu mexia com todo o resto, e, desta forma, fazia com que o boneco de meu irmão escorregasse história adentro, não como se eu fosse um roteirista, mas como se eu fosse um deus.

Diferentemente de um ator, meu irmão não conhecia o roteiro; ele não tinha ideia do rumo que estava traçado (que eu tinha traçado) para a história, mas acabava, sempre e sempre, seguindo este rumo. Não gosto de terminar-me em reticências, mas dane-se. Nessas horas é que nos perguntamos do poder que temos sobre nós, da importância dos figurantes e da influência dos nossos vilões ...

( Juliana Gama )

Um comentário:

  1. Ju, vou ficar cansada de comentar aqui dizendo que adorei seu texto, que seus textos são lindos, profundos, etc. Vê se escreve alguma coisa ruim aí pra gente... rs Brincadeira! Adoro mesmo tudo que você escreve, amei o blog.
    Mil beijos

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