Cecília Meireles, Um cântico.


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
                            Na tristeza.
                            Na dúvida.
                            No desejo.
                            Que te renovas todo o dia.
                            No amor.
                            Na tristeza.
                            Na dúvida.
                            No desejo.
                            Que és sempre outro.
                            Que és sempre o mesmo.
                            Que morrerás por idades imensas.
                            Até não teres medo de morrer.

                            E então serás eterno.


( CÂNTICOS / Cecília Meireles. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. )

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Destino

Olhar para trás - sim, peguei-me a olhar para trás. E a mesma nostalgia, a mesma risada guardada, tudo aquilo que acontece a quem se volta às lembranças me aconteceu. Aquela cabeleira amarela pipocando pela casa com o irmão. Bons tempos, pensei, e continuei a seguir-me escada acima.

Estaria num dia como tantos outros (até porque não me lembraria de um dia específico) e arrumava sobre o piso de madeira uma verdadeira cidade com os brinquedos. Orbanizava estrategicamente cada ponto da cidade, desde o hospital até o ferro-velho, para que a história pudesse acontecer ali. Em seguida, atribuía um papel a cada boneco e punha em prática um roteiro que eu inventava na hora.

O personagem principal era "interpretado" pelo irmão, mesmo a história sendo completamente inventada por mim. Eu gostava de mexer com os outros - com os figurantes, com os parceiros e, principalmente, com os vilões. Eu mexia com todo o resto, e, desta forma, fazia com que o boneco de meu irmão escorregasse história adentro, não como se eu fosse um roteirista, mas como se eu fosse um deus.

Diferentemente de um ator, meu irmão não conhecia o roteiro; ele não tinha ideia do rumo que estava traçado (que eu tinha traçado) para a história, mas acabava, sempre e sempre, seguindo este rumo. Não gosto de terminar-me em reticências, mas dane-se. Nessas horas é que nos perguntamos do poder que temos sobre nós, da importância dos figurantes e da influência dos nossos vilões ...

( Juliana Gama )

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Mentirinha

O amor é besta, meu bem, besta como uma porta. E é por isso que gosto tanto de ti, porque tenho bestidão no peito. E não digas que não entendes, benzinho, rasgaria meu coração.

Acontece que tal sentimento tem o olho maior que os dentes (disto tu sabes muito bem), muito, muito maior, e sai por aí cantando de eterno, de puro, de belo (este último tenho que admitir que ele é), sai cantando e criando cada vez mais expectativa nas pessoas, como se fosse, melhor, como se só fosse por si, e se fosse ser sempre. Entendes? Sei que sim.

Na prática não é assim; mas se ele não percebe, quem é que vai ligar? No fundo quem atrai, quem encanta, são outros sentimentos, uns de barra muito mais pesada, que variam desde a curiosidade da paixonite até o mais secreto capricho que um homem pode ter. O amor é consequência, melhor, é invenção. Por pena ou por sei-lá-o-quê, ninguém tem coragem para chegar nele e desiludi-lo, tão confortável que é o amor! Então, meu bem, continua-se alimentando esta besteirinha meio cega que canta as proezas dos outros pensando que são proezas suas.

Mas quem liga? O pobre é tão, tão bonitinho, benzinho, que agora você que se chegue para cá que a besteirinha está com fome, e cara feia definitivamente não tem nada a ver com ela.

( Juliana Gama )

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VER!SSIMO: A angústia das Savanas

Uma das tantas teorias sobre o começo da civilização é a da angústia do pênis exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus órgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio público.


Antes de darem às fêmeas, ou aos mulherídios, a chance de organizarem uma sociedade de acordo com a sua observação da novidade e determinarem que os mais potentes teriam o poder - o que inviabilizaria qualquer tipo de hierarquia baseada na inteligência e, principalmente, na antiguidade, além de decretar o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam -, os machos tomaram providências, começando por tapar suas vergonhas. A civilização começou pelas calças, ou o que quer que fosse a moda de tapa-sexos nas savanas. E tudo que veio depois - a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as nações, as guerras, todas as afirmações masculinas que independem do pinto - foi, de um jeito ou de outro, uma extensão das primeiras calças.Um disfarce, um estratagema do macho para roubar da fêmea o seu papel natural de guiar a espécie escolhendo o reprodutor que lhe serve pelas suas credenciais mais evidentes, e não pelas suas poses ou poemas.

Toda a nossa cultura misógina vem do pavor da mulher que quer retomar seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta nem nossa santa mãe, nos tirar as calças. Todo o nosso drama milenar foi resumido num pequeno auto admonitório: Yoko Ono seduzindo John Lennon e desfazendo uma idílica ordem fraternal, quase destruindo um mundo. E o que é a supervalorização da virgindade e a estigmatização civil do adultério, como constam na lei brasileira, senão uma tentativa de garantir que a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não pode fazer mais nada a respeito? Continuaríamos vivendo a angústia das savanas.

Independentemente de teorias, a virgindade é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosóficas. Já vi o hímen - que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre - descrito como a prova de que o Universo é moralista. E, levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem, também é misógino. Mas em comparação com o que a mulher, historicamente, sofreu num mundo dominado por homens e seus terrores, o que ela sofre com a Natureza é pinto. Com trocadilho.


VERISSIMO, Luis Fernando. A angústia das Savanas. In: Sexo na cabeça / Luis Fernando Verissimo - Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

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