Se sonha

A luminária acendeu como um pequeno dia - diazinho de nada, na madrugada que se espalhava tão calma, tão sabida de si, sobre um mundo amplo, e sobre uma cama de casal. A soneca do sol; soneca da tarde.
Tão frouxa como acendera-se, fora apagada a luminária da mesinha. É que ela não queria acordá-lo, a moça. Para quê acordar alguém que sonha? Olhou bem para o corpo esticado na cama, a sobrancelha grossa, barba por fazer. Olhos fechados, expressão nenhuma. Se sonha? Sonha. Bem ao seu lado. Bem ali. E tão distante. Intocável. Certo que sonha - é madrugada! A soneca do Sol.

Levantou-se, suave, como se deslizasse pela cama - Quem? - A moça. E os cabelos? Os cabelos soltos. Amassados. De que cor que eles eram? Qualquer cor. Ela levantou-se, cabelos amassados, o blusão de homem que lhe servia de camisola. Foi até a geladeira e voltou. Voltou com os lábios úmidos, a sensação de gelado na garganta, que descia. Parou-se à janela do quarto, viu o céu sem estrelas. Macio, aveludado, e... vermelho. Por que é que o céu é tão avermelhado à noite? Poluição. E antes que um debate moral sobre o viver numa cidade como aquela, um que conteria elementos químicos, sociológicos e ambientais, antes que este debate se travasse dentro dela, a moça amassada fechou bem as cortinas e escorregou-se de volta à cama de casal.

Sentou-se num canto, o oposto ao que estaria o travesseiro do outro. Sentou-se, dobrou as pernas, recolheu-as, o braço apoiado num joelho, e pôs-se a observá-lo novamente. Esticado. Sobrancelhas. Barba por fazer. Será que sonha? Uma dúvida. É madrugada! Mas não pôde concluir o raciocínio. Até podia, mas não quis. É que a questão da poluição voltaria-lhe à mente.

O tempo do silêncio foi, então, o que se seguiu. Nem grande nem pequeno; o tempo razoável para um silêncio. Se sonhava, se não sonhava, o fato foi que uma vontade súbita de acordá-lo atingiu a moça. Assim, de repente, a vontade violenta, arrasadora, subir sobre ele, o corpo esticado, sacudi-lo, gritá-lo, arrancá-lo daquele silêncio; ou se aproximaria com destreza, a agilidade felina que umas moças às vezes têm. Aproximaria-se, o movimento destro, as unhas arranhando-o de leve, subindo-lhe o corpo, respiração depois de respiração, lábios maliciosos ao ouvido, os que estiveram úmidos, lábios que sussurram, o sussuro que é a voz da noite. O deslize que é o ritmo da noite. O movimento. Mas, se sonha? Hesitação. Se sonha? Vai que sim. E o silêncio foi retomando-se, um que já fora doce. Se agora é amargo? Não é que seja amargo. Mas as cores, as unhas, o movimento dos lençóis vão desfazendo-se, marcha ré, todo o filme arquitetado na mente desagarrando-se solenemente da realidade mansa do casal. E a calma, a amplitude, a madrugada já bem sabida de si, aveludada, macia, reergue-se nos arredores do mundo, e daquela cama dividida.

Um ou dois tempinhos podem ter seguido, uns silêncios sem muita importância, quem sabe eram de frustração, ou conformidade. A moça deitou-se ao lado do moço esticado,  acomodou-se. Olhou para ele uma última vez. Esticado, sobrancelhas, barba. Mas agora nem fez questão de se perguntar. Veludo. Maciez. Espremeu os olhos como quem fecha bem as cortinas. Seus pensamentos, uma névoa avermelhada. Ela virou de lado, puxou o lençol e dormiu.

( Juliana Gama )

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Dizeres

Entre os homens de terno, havia um rapaz. Sempre houve. E se não trato dele com a mesma ternura com que trato das minhas meninas, é por questão de hábito, nada mais. Este rapaz não costumava usar ternos àquela altura.

Há quem diga que as meninas são mais confusas, que complicam mais as coisas. Bem que podia ser, mas não importa; no fim, nada faz diferença ao ser dito: desde que se trata de pessoas, as coisas são como são. Somos as exceções das regras.

Aqui está que era simplesmente um rapaz, pouco importando seu grau de confusão; o "rapaz" já diz tudo. Diz da viçosidade da pele dele. Diz da sua aparência consideravelmente saudável. Da pouca experiência já adquirida pelo tempo - afinal, ele é só um rapaz. E desde que citei as meninas, a confusão das meninas, e desde que neguei a regra às pessoas, bem poderia-se dizê-lo confuso. Também, própria às poucas idades que é a confusão, este traço já poderia ter sido dito pelo nome rapaz, ao lado da pele nova e da aparência saudável. Em todo caso, a ideia reforça-se na citação das meninas.

E, bem lembrado, mencionei ainda outro pontinho que grita. A questão dos ternos, outra pincelada ao vosso quadro. Pelos céus que ele não usa os ternos - e sim, deixo em aberto meu sentido, "figurado" (e entre as aspas porque sou dos que pregam que não há outra forma de sentido senão esta). Fosse como fosse, o não usar dos tais ternos deixa espaço para outro dizer: o de que, mais que o rapaz, mais que a confusão, há a diferença. O destaque em relação aos outros - aos homens. E vem a voz da inocência perguntar, não estaria esta questão já agregada à citação das meninas? É, bem que podia, e abro-me num sorriso malicioso de narrador. Mas já me acabei com o rapaz. Por agora, estou apenas a dizer as coisas.

E qual sentido? Sentido... Qual a moral? Mudar. Ou distanciar-se, como preferir quem lê. Das meninas pequenas ao rapaz sem ternos. O próximo passo é escrever dos não-confusos. Se bem que este tipo de gente...

( Juliana Gama )

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Espelho

O fim se aproximava, sorrateiro, aproximava-se sem que se pudesse percebê-lo. De visível, só a sua dúvida. A grande incerteza do fim, com seus anseios vazios, com a sua amarga calmaria. Amarga promessa de um fim que se aproxima.

- Mas que é que se pode perder quando não se tem nada? – ela pergunta, a cabeça queimando por respostas. – Não se perde o que não se tem – e mesmo assim ela temia o fim.

O frio salão funciona como um espelho para ela. Vê formar-se na tua mente uma sala ampla, uma bem refinada, dos anjos esculpidos nas paredes, dos vidros negros nas janelas, e uma menina, uma solitária menina que repousa em seu centro.

- Não posso saber – ela diz. – Não há nitidez no meu pensamento.

O salão responde num suspiro, o ar que sai levando consigo uma parte da luz.

- Pois que vejo um caminho – ela continua –, um pelo qual eu deveria seguir. Mas ele é tão, tão incerto… Não sei se quero segui-lo.

E o salão, amargo, se rebaixa em decepção.

- Mas que posso fazer? – ela pergunta. – Se me arrisco nesta estrada tão incerta, se não me arrisco, se o mais improvável dos fins é o que espero!

Mas o salão não responde. Apenas se recolhe, envergonhado pela ingenuidade da voz que ela tem. Expectativas, menina, não são leis.

- Que é que se pode perder quando não se tem nada? – ela repete. – Se me arrisco por aí, na melhor das sortes terei algo a perder quando o fim chegar.

Vai ver é mais seguro ficar por aqui. Vai ver…

E finalmente o salão se encerra, fechando-se, então, nos receios da menina. Via-se uma lágrima nos anjos das paredes, enquanto os passos daquele final incerto começavam a badalar na escuridão que havia lá fora, do outro lado das janelas escuras.

( Juliana Gama )

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Lá dentro

O quanto custou para que ela chegasse até ali não se pode saber, mas a completude daquele lugar compensaria qualquer sacrifício que a menina fizera. Era, sem dúvidas, um lugar maravilhoso. O céu brilhava branco como em dias de chuva, mas não chovia, e a pequena menininha contemplava a imensidão do mundo que se estendia em redor. Tinha um frescor radiante no rosto, e os olhos arregalados de quem há muito não vê.

Como se acordasse de um longo sono, assim ela se sentia. Seus braços pesavam, suas pernas pesavam, e a cabeça, deus, a cabeça pulsava de uma forma tão exata, tão clara, que não se podia sequer duvidar da veracidade da situação. Era real – o frescor, a pulsação era real, o sangue de fato corria, violento, dentro dela. E os olhos arregalados da menina não cansavam de contemplar aquela imensidão, aquela infinitude. Como se acordasse de um longo e pesado sono. Como se acordasse...

Até a luz branca do céu compactuava com as suas verdades; tudo estava claro agora. Seus modos, seus gostos, quereres, tudo existia, e tudo estava bem ali. E a menina, que chegara ao ponto de se esquecer destas coisas, arregalava os olhos e se fazia encantar com as novas descobertas daquele lugar sem fim.

Que incrível que sou! E o ar simplesmente fluía em seu corpo, toda a vida que ela teria brincando ali, bem diante dela, como vagalumes que voam ao vento. Que livre!

Livre.

Assim se sentia a menina, a pequena menina que se maravilhava com o brilho de seus vagalumes, com o imenso mundo à sua volta, sob o céu branco de um dia sem chuva. Tendo seu mundo inteiro para ser pensado, e tendo, sobretudo, a si, limpa, nítida, clara, pergunto-te: o que mais poderia uma menina querer? Maravilha. Sem dúvidas, maravilha. Ela vivia a mais absoluta das maravilhas que a solidão traz.


( Juliana Gama )

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Alegria, alegria

Nada profundo é o que tenho por dizer. Nada profundo mesmo.

Havia em certa esquina um pedacinho de alegria bruta. Ele vinha de uma forma confusa, completamente assimétrica, e de uns olhares soltos, uns sem definição alguma, mudando, mudando, de inconstante que era.

Pois vê que, no meio de tantos outros pedaços, uns de alegria lipidada, esta nossa alegriazinha simplesmente parava lá na sua esquina, esperando deus-sabe-o-quê de deus-sabe-quem. E as outras alegrias reajustavam-se, perfumavam-se, definiam-se cada vez mais, enquanto a nossa coisinha torta nem questionava sua pequenez. Apenas recolhia-se à sua "desforma" e se acontecia bem ali, naquela certa esquina.

E foi assim por grandes idades, até que o dia chegou. Quando os homens chegaram para escolher sua felicidade, todas as alegrias foram escolhidas, uma a uma, por seus brilhos, suas cores, suas formas bem trabalhadas, mas somente uma, a alegria bruta, que não passara por tratamento algum, fora capaz de proporcionar ao seu portador um riso que valesse por si. E é aí que é valido o chavão de que a gente tem o que a gente procura, é aí.

( Juliana Gama )

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Os mistérios do QUASE

Foi numa ou noutra esquina que dei por conta: A humanidade está toda impregnada de "ses". E é exatamente deste ponto que brotam muitas das nossas superstições do destino. Não sei o quê, mas que existe todo um mistério escondido por trás dos quase-acontecimentos (do que podia ter sido e, por alguma razão oculta, não foi), existe. 
E hoje, particularmente, estou aqui para dissecá-lo.
Conhecem uma dona que tem um marido beberrão. E ela que já fora formosa, a pele lisinha, lisinha, vem conquistando rugas até nos dentes por conta da preocupação. Mas quem é que ia saber que seria assim? Que o Seu Joaquim, que costumava ter tanto charme e uma bela carteira, logo o Seu Joaquim se tornaria um velho beberrão. E ainda por cima barrigudo! E ela era tão jovem, a pele tão, tão lisinha... Quem ia saber, quem!

Se bem que, uns dois dias antes da dona em questão se entregar ao seu atual destino, vê que houve um outro moço - um que não tinha lá tanto charme quanto Seu Joaquim tivera na mocidade, mas ele tinha um charme, ah, tinha. Também a carteira do segundo moço podia não ser, assim, tão cheia, mas sabe que vazia ela não estava. O segundo moço que apareceu dois dias antes, e, por um tantinho de acasos, fez com que a Dona da pele lisa olhasse para ele, e, por outro tanto, o perdesse de vista em nome do charme maior de Joaquim. Quem se vê... Quem vê que com este segundo moço, por uma olhadela, a dona hoje podia não ter tanta ruga... e vê que foi por um se, por um se que a dona não se livrou do barrigudo em potencial que até então Joaquim, ocultamente, era. Ora, só pode ser carma! E se ela tivesse olhado mais. E se o tivesse conhecido melhor. E se (Percebe que, além de misterioso, o destino é cheio de artimanhas). Só pode ser carma.

Só pode, que de trás de tanto charme haveria a possibilidade (agora, confirmada) de um beberrão careca (era careca ou era barrigudo?), um beberrão escondido careca e barrigudo que - quem ia saber! - desgastou a pele tão lisa da dona...

Pela dona, não sei mais, mas para todo o resto, é muito bom ficar de olho nos quase, que tudo, tudo podia ser diferente num só Se que ousasse acontecer.

Estamos por um fio.

( Juliana Gama )

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O que é importante não se vê

    E foi então que apareceu a raposa:


- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu educadamente o menino que, olhando em volta, nada viu.
- Eu estou aqui - disse a voz -, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa - não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Mas, após refletir, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui - disse a raposa - Que procuras?
- Eu procuro amigos - disse o príncipe - Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. - Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. A teus olhos, não passo de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível - disse a raposa - Vê-se tanta coisa no mundo.
E a raposa retomou seu raciocínio.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.

Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vê, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens os cabelos dourados. Então, será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! - disse ela.
- Eu até gostaria - disse o pequenino -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. - Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? - perguntou o pequeno príncipe.

- É preciso ser paciente - respondeu a raposa. - Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...

No dia seguinte, o príncipe voltou.

- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora - disse a raposa. - Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.

- Que é um ritual? - Perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também - disse a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adotam um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é, então, o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca, nunca teria férias!...

Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. 

Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis - disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! - disse ele.
- Vou - disse a raposa.
- Então, não terás ganho nada!
- Terei, sim - disse a raposa - por causa da cor do trigo.

E, depois, acrescentou:

- Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho, para não se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
Tu és responsável pela tua rosa...

Adeus.

( Adaptado de "Le Petit Prince", Saint-Exupéry, 1940 )

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Cecília Meireles, Um cântico.


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
                            Na tristeza.
                            Na dúvida.
                            No desejo.
                            Que te renovas todo o dia.
                            No amor.
                            Na tristeza.
                            Na dúvida.
                            No desejo.
                            Que és sempre outro.
                            Que és sempre o mesmo.
                            Que morrerás por idades imensas.
                            Até não teres medo de morrer.

                            E então serás eterno.


( CÂNTICOS / Cecília Meireles. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. )

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Destino

Olhar para trás - sim, peguei-me a olhar para trás. E a mesma nostalgia, a mesma risada guardada, tudo aquilo que acontece a quem se volta às lembranças me aconteceu. Aquela cabeleira amarela pipocando pela casa com o irmão. Bons tempos, pensei, e continuei a seguir-me escada acima.

Estaria num dia como tantos outros (até porque não me lembraria de um dia específico) e arrumava sobre o piso de madeira uma verdadeira cidade com os brinquedos. Orbanizava estrategicamente cada ponto da cidade, desde o hospital até o ferro-velho, para que a história pudesse acontecer ali. Em seguida, atribuía um papel a cada boneco e punha em prática um roteiro que eu inventava na hora.

O personagem principal era "interpretado" pelo irmão, mesmo a história sendo completamente inventada por mim. Eu gostava de mexer com os outros - com os figurantes, com os parceiros e, principalmente, com os vilões. Eu mexia com todo o resto, e, desta forma, fazia com que o boneco de meu irmão escorregasse história adentro, não como se eu fosse um roteirista, mas como se eu fosse um deus.

Diferentemente de um ator, meu irmão não conhecia o roteiro; ele não tinha ideia do rumo que estava traçado (que eu tinha traçado) para a história, mas acabava, sempre e sempre, seguindo este rumo. Não gosto de terminar-me em reticências, mas dane-se. Nessas horas é que nos perguntamos do poder que temos sobre nós, da importância dos figurantes e da influência dos nossos vilões ...

( Juliana Gama )

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Mentirinha

O amor é besta, meu bem, besta como uma porta. E é por isso que gosto tanto de ti, porque tenho bestidão no peito. E não digas que não entendes, benzinho, rasgaria meu coração.

Acontece que tal sentimento tem o olho maior que os dentes (disto tu sabes muito bem), muito, muito maior, e sai por aí cantando de eterno, de puro, de belo (este último tenho que admitir que ele é), sai cantando e criando cada vez mais expectativa nas pessoas, como se fosse, melhor, como se só fosse por si, e se fosse ser sempre. Entendes? Sei que sim.

Na prática não é assim; mas se ele não percebe, quem é que vai ligar? No fundo quem atrai, quem encanta, são outros sentimentos, uns de barra muito mais pesada, que variam desde a curiosidade da paixonite até o mais secreto capricho que um homem pode ter. O amor é consequência, melhor, é invenção. Por pena ou por sei-lá-o-quê, ninguém tem coragem para chegar nele e desiludi-lo, tão confortável que é o amor! Então, meu bem, continua-se alimentando esta besteirinha meio cega que canta as proezas dos outros pensando que são proezas suas.

Mas quem liga? O pobre é tão, tão bonitinho, benzinho, que agora você que se chegue para cá que a besteirinha está com fome, e cara feia definitivamente não tem nada a ver com ela.

( Juliana Gama )

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VER!SSIMO: A angústia das Savanas

Uma das tantas teorias sobre o começo da civilização é a da angústia do pênis exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus órgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio público.


Antes de darem às fêmeas, ou aos mulherídios, a chance de organizarem uma sociedade de acordo com a sua observação da novidade e determinarem que os mais potentes teriam o poder - o que inviabilizaria qualquer tipo de hierarquia baseada na inteligência e, principalmente, na antiguidade, além de decretar o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam -, os machos tomaram providências, começando por tapar suas vergonhas. A civilização começou pelas calças, ou o que quer que fosse a moda de tapa-sexos nas savanas. E tudo que veio depois - a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as nações, as guerras, todas as afirmações masculinas que independem do pinto - foi, de um jeito ou de outro, uma extensão das primeiras calças.Um disfarce, um estratagema do macho para roubar da fêmea o seu papel natural de guiar a espécie escolhendo o reprodutor que lhe serve pelas suas credenciais mais evidentes, e não pelas suas poses ou poemas.

Toda a nossa cultura misógina vem do pavor da mulher que quer retomar seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta nem nossa santa mãe, nos tirar as calças. Todo o nosso drama milenar foi resumido num pequeno auto admonitório: Yoko Ono seduzindo John Lennon e desfazendo uma idílica ordem fraternal, quase destruindo um mundo. E o que é a supervalorização da virgindade e a estigmatização civil do adultério, como constam na lei brasileira, senão uma tentativa de garantir que a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não pode fazer mais nada a respeito? Continuaríamos vivendo a angústia das savanas.

Independentemente de teorias, a virgindade é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosóficas. Já vi o hímen - que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre - descrito como a prova de que o Universo é moralista. E, levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem, também é misógino. Mas em comparação com o que a mulher, historicamente, sofreu num mundo dominado por homens e seus terrores, o que ela sofre com a Natureza é pinto. Com trocadilho.


VERISSIMO, Luis Fernando. A angústia das Savanas. In: Sexo na cabeça / Luis Fernando Verissimo - Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

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Bons dias!




Se lhes disser desde já, que não tenho papas na língua, não me tomem por homem despachado, que vem dizer coisas amargas aos outros. Não, senhor; não tenho papas na língua, e é para vir a tê-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui está o que é: eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver que os relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício. A única explicação dos relógios era serem igualzinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como o do meu barbeiro.




[...]


Foi por essas e outras que descri do ofício; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos."






(MACHADO DE ASSIS, "Crônica de Bons dias!". 5 de abril de 1888)

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